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No meu post sobre Comunicação na chamada era pós-digital, falei de cinco dicas para se comunicar melhor nesse novo cenário, e uma das dicas é produzir conteúdo autêntico. E agora vamos entender a tal da autenticidade.

E aí você pode estar pensando: como fazer isso? Então neste post você vai saber mais sobre autenticidade, o que diz a ciência e como ser autêntico na comunicação.

Você provavelmente já ouviu de alguém: “seja autêntico!” Além disso, a era em que estamos vivendo exige das pessoas uma comunicação mais autêntica, uma relação mais verdadeira e transparente entre as pessoas.

Seja na saúde, na política, não importa. As empresas, os profissionais, as marcas, que têm por trás pessoas (não podemos esquecer disso) estão precisando reavaliar constantemente a forma de se comunicarem com o público.

Mas isso vai além da esfera profissional. Aqui, o “profissional” não se dissocia do “pessoal”, sobretudo quando lançamos o olhar sobre questões da natureza humana.

Então, o que é autenticidade? Será que é “somente” “ser você mesmo?”, como o senso comum pode pensar? Dá uma olhada em alguns conceitos interessantes.

Autenticidade: uma palavra, várias definições

O conceito de autenticidade passa por várias áreas do conhecimento, por exemplo, sociologia, filosofia, psicologia e teorias da comunicação.

Se você tiver um tempinho e fizer uma pesquisa no google sobre o termo, verá que são muitas as pesquisas, embates e reflexões.

Então é importante entender que a autenticidade é um conceito multidimensional, o que pode tornar difícil, ou ainda inviável, estabelecer uma única definição.

Se entrarmos na filosofia, Jean-Jacques Rousseau (1973) (citado por Garçon e Yanase) diz que a autenticidade está relacionada à busca do homem por encontrar um sentimento de existência, algo mais íntimo. Tipo se conectar com você mesmo.

Já para o filósofo e professor alemão Martin Heidegger, uma característica importante da autenticidade é que ela se estabelece pelo processo de desvelamento em busca da autocompreensão.

No campo da sociologia, a autenticidade é percebida como indissociável de uma visão mais holística.

Em outras palavras, não pode ser desvinculada do contexto social, já que a existência autêntica inclui também a forma como a gente se relaciona com as pessoas.

Mais conceitos sobre autenticidade…

Garçon e Yanase, doutores em Ciências da Comunicação pela USP, explicam sobre o conceito de autenticidade na sociologia citando também Anthony Giddens.

Ele propõe o termo autoidentidade, que define “aquele psicologicamente estável e que se reconhece como resultado de sua história, tradição e cotidiano, buscando a autorrealização a partir da integração entre experiências cotidianas e sua verdade interior”.

Na psicologia, a autenticidade também é amplamente discutida, e inclui pensamentos de filósofos como Charles Taylor.

Ele acredita que a autenticidade deve ser pensada como algo que deve ir além do self, ligando-se aos outros.

Ele diz isso porque crê que o individualismo autocentrado pode trazer consequências ruins para a pessoa, já que não se pode esquecer da condição humana dialética.

Outros filósofos, como Boesch, entendem a autenticidade não como a busca da essência, mas como um constante vir a ser que deve ser construído eliminando o que nós consideramos impedimentos.

Parece complexo, não?

Autenticidade tem a ver com a percepção do outro sobre você

Do ponto de vista das teorias da comunicação, é isso mesmo. Ser autêntico também engloba a relação/validação da outra pessoa.

É como se existisse “um jogo de representações identitárias no qual os sujeitos se preocupam em projetar uma autoimagem de distintividade, sinceridade, coerência e honestidade a fim de serem aceitos, bem vistos e valorizados em cada um dos grupos dos quais participam”.

Ou seja, para os estudiosos da comunicação, a autenticidade entra em um campo de “disputa pelo sentido da significação: a definição se alguém é ou não é autêntico passa a ser uma construção simbólica mútua”.

Quando se fala em autenticidade na comunicação, não tem como não falar de Walter Benjamin. Para ele, para que algo seja autêntico, ele precisa ser original.

Ou seja, se é reproduzido, vai perdendo sua aura, sua autenticidade (para quem quiser saber mais, o sociólogo discute mais no livro “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica”).

Mas, será que existe algo totalmente original? Lembrei daquela frase famosa de Lavoisier, que diz que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Além disso, hoje o que não falta é reprodução e viralização de conteúdo na internet, certo? Então a autenticidade teria entrado em colapso, segundo Benjamin.

Esse pensamento é discutido e realinhado, afinal, a sociedade está mudando sempre, principalmente agora, na chamada era pós-digital.

Os benefícios de ser você mesmo segundo a ciência

De novo, se tiver um tempinho, pesquise sobre o que a ciência diz sobre possíveis benefícios da autenticidade. Tem muita pesquisa.

Pessoas que se sentiam mais autênticas em diferentes áreas da vida, por exemplo, nas amizades ou nos relacionamentos amorosos, tinham menos ansiedade, estresse e depressão, segundo uma pesquisa publicada no Journal of Personality and Social Psychology.

Pessoas que se declararam autênticas tinham um melhor relacionamento com os outros e também um crescimento pessoal, segundo evidências científicas.

Outro estudo da Universidade da Pensilvânia mostrou relação entre autenticidade/singularidade e bem-estar e uma maior satisfação com a vida.

Então, como ser autêntico na comunicação?

Deu para notar que autenticidade sempre remete a algumas palavras: essência, valores, princípios, verdade, autoconhecimento, autocompreensão, interior, íntimo, peculiar, identidade, originalidade, coerência, tradição, conexão.

Consegue se lembrar de mais alguma?

Então, de que forma comunicar de uma maneira mais autêntica? Isso é possível? Será que as pessoas vão se interessar por aquilo que tenho de mais pessoal?

Respondendo: pode ser interessante pensar nessas palavras aí em cima se você quer trabalhar mais a autenticidade na sua comunicação.

Só que é legal lembrar também que ficar se cobrando (“eu preciso ser autêntico!”) pode justamente fazer com que você não seja autêntico, espontâneo.

Autenticidade tem a ver com leveza, espontaneidade, tranquilidade com você mesmo.

Como você mesmo viu neste post, autenticidade é algo mais subjetivo, instintivo e totalmente particular para cada um de nós, e não tem receita de bolo.

Se você está achando que algo não está muito legal na sua comunicação, é legal encontrar a sua maneira de pensar os aspectos da autenticidade na sua vida. É o caminho mais coerente.

Detalhe importante: dizem que vivemos no imediatismo. Queremos tudo para ontem. Só que vale lembrar que a autenticidade entendida como autoconhecimento está longe de ser um processo imediato e simples.

Muitas vezes, na verdade, se constitui como uma questão enigmática, inclusive nas pesquisas da psicologia, que pesquisam os processos por trás da construção do “verdadeiro eu”. Ele existe, de fato?

O outro lado da autenticidade

A discussão sobre autenticidade é delicada neste sentido, como mostra este estudo publicado em 2019, que observa com certa cautela as discussões em torno da autenticidade.

Os pesquisadores demonstram preocupação com a era do “seja autêntico”, questionando, por exemplo, que muito do nosso comportamento é inconsciente.

Logo, será que a gente se conhece mesmo? O nosso ponto cego não seria a gente mesmo?

Enfim… as reflexões sobre esse assunto são inesgotáveis, e muitas vezes a gente não vai ter resposta pronta. Por isso trouxe um monte de reflexões para deixar você pensando.

Ciente dessas nuances, em uma coisa eu acredito: as pessoas percebem, de alguma forma, provavelmente irracional, quando você está sintonizado (a) com você, suas ideias, seus propósitos de vida.

E em algum momento elas acabam sintonizando verdadeiramente com você também!

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