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O novo coronavírus está acelerando as transformações no trabalho. Na forma como conectamos com os outros. Está intensificando, em um ritmo talvez nunca visto, a dinâmica do mundo. Do digital.

Uma euforia cibernética. Cibernética essa entendida aqui como campo de pesquisa do tecnológico, da relação sujeito-máquina e sujeito-máquina-sujeito.

Então vou compartilhar aqui o que estou aprendendo sobre a pandemia do novo coronavírus e o que eu resolvi chamar, por enquanto, de euforia cibernética.

Coronavírus: o desconforto no conforto do lar?

Em tempos de protagonismo do coronavírus, acredito que você esteja aprendendo alguma coisa.

Eu estou. Em apenas 15 dias evitando sair de casa, tenho vivido e pensado coisas que, se não fosse essa pandemia, talvez ficariam para outro momento.

Acho que o distanciamento físico está aproximando alguns de uma zona desconfortável dentro do conforto do próprio lar.

Você está no rol dos tranquilos ou estressados dentro de casa? Ou nenhuma dessas opções?

Eu, por enquanto, não estou entre esses, mas no rol dos desconfortáveis.

Por exemplo: meu negócio é quase todo digital, ou seja, trabalho em casa. E também em qualquer lugar. Além disso, tenho o costume de sair bastante.

Então, para mim, houve um desconforto.

Além disso, uma ansiedade aumentada e preocupação com minha empresa que, mesmo sendo digital, sofrerá os impactos do novo coronavírus.

E você, quais as suas dores? Afinal, cada um tem vivido de um jeito o “fique em casa”.

Além do mais, por ser jornalista, é difícil desligar das notícias. Tive que estabelecer horários para me informar, porque estava ficando improdutiva.

A internet vai dar conta de nós?

Pense aí: quantas vezes você tem acessado a internet nos últimos dias?

Pois é, os seus cliques fizeram o tráfego por aqui alcançar, no dia 18 de março, 10 terabits por segundo de pico.

Os dados são do Comitê Gestor da Internet (CGI), órgão que regulamenta a internet no Brasil.

Segundo reportagem do G1, 10 Tbps (terabits por segundo), são suficientes pra transmitir 3,3 milhões de vídeos em streaming na qualidade de alta definição (HD).

Porém, segundo o presidente e diretor de Projetos Especiais e de Desenvolvimento do NIC.br, Milton Kaoru Kashiwakura, o crescimento não é muito acima da média e não pode ser analisado isoladamente.

Ainda assim, a Anatel – Agência Nacional de Telecomunicações recomendou que provedores aumentem a capacidade da internet.

Outra medida interessante é a isenção da cobrança de franquia de dados para o acesso ao aplicativo Coronavírus – SUS, desenvolvido pelo Ministério da Saúde.

A própria televisão, que vinha registrando queda de audiência se comparada ao Youtube segundo alguns estudos, obteve no mundo um aumento de 20% na semana anterior ao dia 27 de março, em comparação ao mesmo período do mês anterior.

Além disso, plataformas digitais como a HBO Now assinalaram aumento considerável na exibição de filmes e séries: 70%.

De acordo com post do site da HBO, o documentário “Ebola: The Doctor’s Story” ficou entre os títulos mais assistidos na semana do dia 24 de março, com uma exibição 7 vezes maior que nas últimas semanas.

A euforia cibernética

Em tempos de pandemia no mundo “real”, parece haver uma ressignificação do mundo “virtual”.

Instituições, órgãos, universidades e empresas liberando materiais gratuitos e totalmente on-line.

Autoridades e empreendedores desenvolvendo aplicativos de combate ao coronavírus.

Educadores físicos e academias fazendo treinos ao vivo.

Pessoas ensinando outras a cozinhar e manter – ou mesmo aprender – hábitos saudáveis – durante a quarentena.

Gente postando que você não precisa se sentir pressionado a produzir mil conteúdos só por que muitas pessoas estão produzindo mil conteúdos.

Empresas se reinventando em poucos dias, passando do off para o on.

Gente fazendo lives com pessoas de outros países duramente afetados pelo coronavírus, como Espanha e Itália.

Gente que ainda não era familiarizada com o digital (mesmo vivendo no pós-digital) tendo que aprender a estar aqui.

Milhares fazendo chamadas de vídeo para rever amigos e familiares.

Telemedicina, terapia online, vídeoconferências.

Fake News de todos os tipos.

Atritos virtuais por causa de tretas políticas.

No Instagram, a quantidade de transmissões ao vivo está até me atrapalhando a visualizar os últimos stories rs.

Esses dias a mídia social deu umas boas travadas, sumiram stories meus e de vários usuários. Máquinas sobrecarregada de humanos?

Enfim, tudo meio eufórico por aqui.

Euforia é bom o ruim?

Dadas as ressalvas (como as Fake News e a sobreposição da política e economia à saúde), tenho achado essa euforia cibernética importante.

Vejo a euforia como uma excitação, uma exaltação do que já vem acontecendo no campo do digital.

Agora, aqui vale o maniqueísmo: seria ela algo bom ou ruim?

O próprio conceito tem em seu significado, conforme apontam alguns dicionários on-line, um estado de entusiasmo e ansiedade concomitantes.

Então, para responder a essa pergunta, vou deixar por escrito o que eu falei em vídeo nos meus stories.

Concordo plenamente com o médico psiquiatra Dr. Luiz Carlos, professor da Faculdade de Medicina da UFU e o qual eu tive o prazer de entrevistar algumas vezes, inclusive para o podcast do Meu Cérebro, em que falamos sobre hábitos.

Em uma live para o @meucerebro, quando questionado sobre recomendações para esse momento de maior conexão por aqui, ele falou algo como:

Olha, é sobre nossas escolhas.

E por aí mesmo.

A internet não é a vilã. Ela é alimentada por nós.

Então, pense comigo: a gente pode escolher não ficar o dia todo no Instagram.

Nós podemos escolher ver filmes no fim da tarde mas durante o dia aproveitar os cursos gratuitos.

A gente pode escolher fazer um detox da internet.

Agora, pode ser difícil resistir ao mundo digital, eu sei. Afinal, mesmo tendo em sua constituição máquinas, tem muita coisa por trás dele que vai ao encontro justamente da natureza humana.

E tem muita coisa por trás das nossas escolhas: das ciências humanas às neurociências, uma infinidade de discussão sobre isso.

Não só por trás, mas no meio e à frente das nossas escolhas, há um inesgotável arcabouço constantemente influenciado por tudo que nos circunda.

Então, que possamos ir pensando melhor nas nossas escolhas de como viver no mundo cibernético para que seja possível ir ajustando a nossa euforia.

Desde que eu comecei a trabalhar digitalmente (foi antes da pandemia) eu precisei fazer algumas escolhas.

Ainda é difícil, mas estou atenta constantemente para não deixar a peteca cair. Tem me ajudado.

Que da euforia fique o entusiasmo

E, como a ansiedade nos é inerente, que possamos prestar atenção em sua intensidade para não pularmos de finca no tecnoestresse.

Estresse resultante do uso de tecnologias da informação e comunicação e a expectativa em torno desse uso. A investigação do tecnoestresse e suas repercussões orgânicas e sociais é um esforço multidisciplinar que tem ganhado a atenção de muitos pesquisadores diante da utilização em massa da internet, sobretudo através de dispositivos móveis, e suas diversas ferramentas e aplicativos on line”.

post do instagram do @meucerebro.

Por fim, que da euforia cibernética, que possa ter surgido da pandemia do novo coronavírus, fique então o entusiamo, mesmo quando ela passar.

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